por Paulo Silvestre

    Muito se discute sobre a eventual incompatibilidade entre o Conservadorismo e o Liberalismo. 

    Salvo o devido respeito, noto que muitos amigos e colegas Liberais olvidam que: 

    I. O Conservadorismo se opõe conceptualmente ao Progressivismo, e que; 

    II. O Liberalismo se opõe conceptualmente ao Autoritarismo. 

    Daqui deriva que: 

    1. Um Conservador pode ser liberal ou autoritário sem qualquer contradição; 

    2. Um Progressivista pode ser liberal ou autoritário sem qualquer contradição; 

    3. Um Liberal pode ser conservador ou progressivista sem qualquer problema (ideo)lógico; 

    4. Todavia, um Liberal deixará, eo ipso, de ser liberal se for favorável ao autoritarismo, provenha este de onde provier — do Estado, da Sociedade, etc. 

    Em suma, para um Liberal, o veneno, o anátema, a kriptonite (conforme a sua religião ou ausência dela) é o Autoritarismo — o autoritarismo, como supremacia de uma vontade colectiva sobre, contra, e apesar da vontade do Indivíduo. 

    Donde, para um Liberal: 

    O progressivismo autoritário será sempre iliberal e perverso; 

    O conservadorismo autoritário idem, idem; 

    O “liberalismo autoritário” não é liberalismo nenhum, é um oximoro, um paradoxo. 

    Não cabe aqui definir Conservadorismo ou Progressivismo. E estaríamos mal se fosse necessário definir Liberalismo. Importa, assim, definir “Autoritarismo”. 

    O 1984 de Orwell era um horror autoritário? Sim. A URSS e o III Reich? Sim. O Admirável Mundo Novo de Huxley? Boa questão (mas é claro que sim). E Portugal 2020?... Vejamos. 

    Quase cem anos volvidos sobre a escrita dos Cadernos do Cárcere, ninguém sistematizou tão claramente a natureza do autoritarismo como Antonio Gramsci. 

    Para Gramsci, o controlo social e a supremacia de um grupo dominante sobre os demais podem ser efectivados de DUAS maneiras: 

    (1) De uma maneira evidente, “hard”, externa, coerciva, feita por via do domínio do Outro, traduzida em estímulos e castigos destinados a determinar o seu comportamento e as suas escolhas. 

    Exemplos de domínio coercivo são o 1984, a Oprichnina, o Gulag, a Gestapo. 

    Não há pessoa de bem que seja a favor do controlo pelo domínio — só mesmo os comunistas e os fascistas (passe a redundância) o defendem: todos concordamos neste ponto. 

    (2) Mas há outra forma mais insidiosa de controlo. Aquele que é levado a cabo de uma maneira “soft”, interna, através de uma “Liderança Moral e Intelectual” (sic) — a célebre “Hegemonia” gramsciana. A Hegemonia funciona sorrateiramente, moldando as convicções pessoais dos indivíduos, para que essas convicções repliquem fielmente as normas sociais prevalecentes. 

    Exemplos de controlo hegemónico são o Admirável Mundo Novo, a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, e toda a sorte de “Unanimidades”, “Pânicos Morais”, “Crises”, ou “Emergências” com que diariamente somos confrontados, e com os quais temos que alinhar sem reservas, sob pena de “excomunhão” da boa sociedade. 

    Alguns sectores do pensamento substituem o termo Hegemonia com a controversa expressão “Marxismo Cultural”. Pessoalmente, a expressão não me choca — de todo. 

    É na presença desta forma de autoritarismo insidioso, ao qual voluntariamente nos submetemos e ao qual damos, mais ou menos conscientemente, o nosso consentimento expresso ou tácito, que os Liberais se dividem. 

    Alguns Liberais consideram que o autoritarismo se limita à bota militar eternamente repousada no pescoço do Indivíduo. Sim, isso é autoritarismo. Mas é ingénuo, e errado, acreditar que o autoritarismo se resume a este “boneco”. 

    Outros Liberais, entre os quais me conto (e até, ironicamente, comunistas, como Gramsci, Marcuse, Foucault, Derrida) percebem, sentem na sua espinha, que há formas de controlo autoritário mais evoluídas, que prescindem do chicote disciplinador. Que subjugam por via do consentimento do subjugado.

    Estes Liberais sabem também que as formas de controlo exercidas pela Hegemonia pertencem hoje ao lado progressivista, ao lado Esquerdo da política. 

    Com efeito, salvo algumas débeis tentativas conservadoras de adaptar estas ideias subversivas à Direita política — recordo, p. ex., um esforço do Tea Party americano para cooptar as “Regras Para Radicais” de Saul Alinsky, ainda assim mais como táctica do que como estratégia — o controlo “soft” das mentalidades pertence aos progressivistas. 

    É inegável que a “Revolução Permanente” de Marx e Trotsky, a “Hegemonia” de Gramsci, a “Longa Marcha Pelas Instituições do Poder” de Dutschke, o “Homem Unidimensional” de Marcuse, a “Interseccionalidade” de Crenshaw, a “Fragilidade Branca” de Di Angelo, ideias que gozam hoje de grande popularidade e prestígio, não são ideias conservadoras, nem poderiam ser. 

    E não são ideias liberais — prescindem e contrariam, todas elas, expressamente, a justiça singular, o livre pensamento, a liberdade de expressão, a vontade individual, o livre arbítrio. Em suma, estas ideias progressivistas negam a Liberdade em favor de outros “valores”. 

    O que dizer, então, a um Liberal que se afirma progressivista? A um liberal anti-conservador? A um Liberal que se conforma com a Hegemonia? A um Liberal que enxerga e concorda com a Mão Invisível de Adam Smith, mas que acha que a Mão Invisível de Antonio Gramsci é uma teoria da conspiração? Sinceramente, e com todo o respeito, não sei. 

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 A imagem acima é tirada daqui: JOSEPH V. FEMIA, “Gramsci's Political Thought – Hegemony, Consciousness, and the Revolutionary Process”, Clarendon Press, Oxford, 1981, p. 24 

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